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The Shape of Water: A inefável obra de Guillermo del Toro!

A filmografia de Del Toro fica evidente dentre os três primeiros minutos de filme. Reconhecemos sua palheta de O Labirinto do Fauno, o tratamento da luz, as cores opacas que se contrastam e até deixarmos a trilha sonora nos envolver, literalmente nos fazendo mergulhar em um mundo de azul petróleo e verde água. A história não é complicada, não temos elementos surpresas, é bem fácil e realmente simples. Uma mulher, sozinha no mundo, que se sente incompleta, encontra em uma criatura a conexão que faltava em sua vida. Existe um vilão, existem amigos que a ajudam, existe um momento de tensão onde você pensa que toda esperança está perdida e então, existe um final feliz. Simples, um conto de fadas como qualquer outro, se formos parar pra pensar. Isso é tudo o que eu preciso lhe dizer para lhe convencer a comprar seu ingresso e ir ao cinema. Agora, deixe-me contar mais sobre a mágica que existe dentro de The Shape Of Water. Del Toro encontra aqui a sua própria ode. Seus anos de trabalhos seguiram em frente para esse exato momento.

Eliza é simples. Ela é uma mulher presa em sua rotina diária, ela estabelece um ritmo, Del Toro nos dá tempo para conhecermos e reconhecermos a personagem. Nos envolvermos em seus maneirismos, criamos suas esperanças, depositamos nossas vontades e habilidades dentro dessa persona. Eliza nos completa e nos preparara para o que tem por vir dentro de seus 123 minutos de ação. Ela não para, ela se movimenta por todo o filme, seu pensamento é exato, passional, mas criativo e funcional. A maior parte dessa incrível recepção a personagem se deve a interpretação de Sally Hawkins. Eliza é muda, ela escuta muito bem todos a sua volta, mas é incapacitada de expressar em voz seus sentimentos. Sally possui apenas uma função, exteriorizar através de suas ações os desejos e esperanças de Eliza, e aqui ela faz isso com maestria. Em 2007, a atriz trabalhou na adaptação da obre literário a de Jane Austen, Persuasão, onde sua personagem Anne possuía características semelhantes ao silêncio, condescendência o que determina um ritmo bem leve, uma passagem bem ditada de cada ação da personagem. Com Eliza, Sally acompanha o mesmo ritmo de trabalho, somos obrigados a acompanhar toda a história, por seu rosto e seu olhar. Ela grita com seus grandes olhos azuis, seus sentimentos e senso. Ela sabe enxergar as maravilhas do mundo através do silêncio. Seu toque, sua pele, sua essência se tornam familiar para nós, ela nos dá boas vindas ao universo do qual ela escolhe fazer parte.

O homem anfíbio é familiar. O reconhecemos por HellboyO Labirinto do Fauno. Seus personagens são tão expressamente impressionantes, que é impossível não reconhece-lo em sua plena característica aqui, Del Toro deu a Abe de Hellboy, um upgrade mais do que merecido. Ele não é apenas uma mutação descoberta por um grupo de cientistas. Ele é uma fábula, místico e tem até alguns que o considerariam um deus. O trabalho de concept do personagem está incrível. Cada detalhe, as terminações nervosas de seu corpo, suas expressões, o piscar de deus olhos, a curiosidade latente que existe em sua forma de descobrir as coisas. Ao contrário do que muitos podem pensar, esse é o “monstro” mais expressivo de Del Toro, personificado através de Doug Jones. Parece até absurdo e inconcebível o amor entre uma humana e um homem anfíbio, do mar. Mas cada vez que ele se posiciona, a abraça ou a encara, conseguimos passar da criatura e vemos a forma do homem, do sentimento.

Michael Shannon criou uma carreira vivendo personagens atípicos. Seu vilão pode ser considerado o “Gaston”, desse conto de Bela e Fera pela visão desse diretor que brinca com os elementos de fantasia, fantástico e terror. Entendemos que sua vilania desde o princípio, novamente, todos os elementos da história estão bem ditados a nossa frente, a mágica é como eles são trabalhados. Ele é o vilão, seus motivos são egoístas, sua psicopatia funciona no mundo em que ele vive e quer criar. O homem americano, com princípios e tradições. Seus preconceitos são diretos, sua vontade realizada e sua masculinidade testada ao longo de todo o filme. Um excelente personagem que causa repulsa em suas ações. Shannon conseguiu elevar a classificação de vilania para um outro nível. Brilhante e incansável.

 

No arco dos personagens coadjuvantes, Octavia Spencer, como Zelda, entrega coragem, comédia e determinação. Assim como o personagem de Richard Jenkins, o roteiro de Del Toro e Vanessa Taylor trabalha em sub-linhas, as histórias paralelas desses heróis acontecem ao mesmo tempo que a nossa plot principal. Pela ambientação do filme ficamos conscientes de suas maneiras de pensar e suas vidas. O subtexto foi muito bem desenvolvido e agraciado pela sutileza de Del Toro.

A fotografia de Dan Lautsen trabalha com uma cor em proeminência Teal. No dicionário, o significado dessa cor trabalha com uma expressão: “Uma pequena explosão de água, tipicamente verde, que cria sua forma azul através da luz.”. A água é um personagem exterior. Ela está em todo lugar, em como abraça o corpo de Eliza dentro da banheira, na luz que se move pela forma de seu corpo quando ela passa de um corredor ao outro, no reflexo claro do sol ao refletir em sua superfície criando a sombra perfeita da cor mais quente, indicando o exato momento em que Eliza se apaixona por essa mítica criatura. As cores nos abraçam e nos carregam para o ápice de quando Eliza toma sua verdadeira forma.

A fotografia fecha dentro do noir clássico que ambienta nos anos 40/50, com um ritmo delicado de edição, cortes rápidos e uma passagem de tom pura, intensificando a temática que o filme abrange. Isso tudo acompanhado da nota clara de Alexandre Desplat. O compositor que brinca com nossos sentimentos, eleva os momentos de clareza e tranquilidade, nos emociona nos momentos de paixão e expressão e nos aterroriza quando nossos corações saltam para o a base de nossa garganta.

The Shape Of Water carrega o que a fantasia tem de melhor. Damos um passo fora da realidade ao nos aventurarmos em um mundo onde tudo é possível e todos os sentimentos se elevam ao máximo. A Fantasia tem o poder nos transportar não para fora do mundo onde vivemos, mas para dentro do que realmente sentimos. Del Toro nos deu uma história. Del Toro nos deu um conto de fadas, de amor, de amizade e principalmente de coragem. Mas além disso, a forma como recebemos é inteiramente nossa. Conhecemos esses sentimentos, lidamos com eles todos os dias. Perdas, esperanças, somos lembrados de como a luz dentro de nós reflete em nosso olhar ao ousarmos sonhar. The Shape Of Water consegue nos ensinar a respirar. Quando Eliza finalmente está embaixo d’água, junto com ela, tomamos nosso primeiro fôlego ao reconhecermos nossa ousadia em gritar em meio ao silêncio, dentro do vácuo do oceano mais fundo, em busca daquela conexão que nos reconheça.

Sobre o Autor

Dandara Aryadne
Pseudo escritora, artista plástica nas horas vagas. Criadora e colunista principal do site Cinema ATM.

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